Projeto Formas Marias de Ser: Uma Discussão da Identidade Feminina  

O presente projeto vem sendo desenvolvidos com mulheres de baixa renda em comunidades carentes e
outros espaços.

Nasceu da convivência e da observação das relações que mulheres, mães de crianças e adolescentes com câncer, hospedadas numa casa de apoio, estabelecem entre si, com seus filhos, consigo mesma. Mais especificamente, da necessidade de reunir informações, trocar experiências e intervir sobre este universo de forma a facilitar a convivência nesta casa.

Oriundas de todo o Brasil na busca de tratamento para seus filhos, na Casa de Apoio aconteciam muitos encontros e despedidas, permeando o crescimento desse espaço que tem na Mulher-Mãe que acompanha seu filho doente uma figura fundamental para o bem estar da criança.

São mulheres que trabalham, conversam, cuidam, buscam a cura, reúnem, expulsam, excluem, acolhem, relaxam, cantam, criam, brigam, julgam, protegem, gritam, silenciam, calam, fogem, abraçam, rezam, amam, odeiam, choram, riem, cozinham, comem e dão de comer, amamentam ou amamentaram um dia, nutrem, geram, concebem, parem, adotam, oferecem, doam, perdoam, abdicam ... São muitos os verbos que se conjugam as múltiplas relações que se estabelecem neste universo feminino.

Tem como proposta contribuir para o resgate e o cultivo da essência feminina da mulher, visando a valorização do ser - neste caso, fragilizado e acuado em função da possibilidade da perda de seu filho, do afastamento de sua família, do seu meio sócio-cultural e, muitas vezes, profissional. Sua finalidade primeira é a reflexão acerca da expressão do feminino nas suas diferentes maneiras de manifestação e expressão; e, num segundo tempo, visa a comercialização de produtos criados por estas mulheres para arrecadação de renda no período em que estão afastadas de seus lares e empregos.

Para tanto, buscou-se uma forma lúdica e uma linguagem comum que abarcasse o nosso universo cultural de Norte a Sul do país e o transcendesse. Como sinônimo de ser mulher, "ser Maria", fala de modelos de comportamento e das diferentes facetas nas quais o Feminino pode se manifestar, facilitando a projeção de conteúdos e idéias. Estes ao serem expressos simbolicamente no estudo dos diferentes "estilos Maria de ser" e ao serem concretizados na confecção de bonecas, podem ser melhor elaborados e integrados.

O projeto é desenvolvido através de dinâmicas de Oficinas Arteterapêuticas, tendo como base a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a Análise Psico-Orgânica de Paul Boyesen.

Possibilita:

• a observação da multiplicidade de divisões que ocorrem entre as mulheres: religiosidade, poder aquisitivo, manutenção ou não da própria identidade frente à situações de stress extremo, como a doença grave de um filho;

• a percepção do posicionamento radical de algumas mães em relação à sua própria religiosidade impedindo um olhar mais amplo sobre a situação vivenciada;

• um grande relaxamento do qual as participantes usufruem quando iniciam o trabalho artesanal, falando espontaneamente de si: seus desejos, sonhos, medos e esperanças;

• a construção de um espaço de confiança entre terapeutas e participantes, favorecendo o compartilhar de situações e emoções;

• a percepção dos limites e possibilidades da convivência grupal, que podem ser expressas e acolhidas no grupo;

• uma maior compreensão dos trabalhos terapêuticos e assistenciais oferecidos pela Casa de Apoio e outros no próprio município e estado de origem;

• o aumento da auto-estima, trazendo o reconhecimento das próprias qualidades;

• o reconhecimento do Feminino em suas múltiplas formas de expressão;

• a conexão com a capacidade de buscar recursos internos para apaziguar as situações dolorosas, vividas no contato com o Self;

• a percepção de dificuldades oftalmológicas e neurológicas por parte de algumas mulheres atendidas, possibilitando encaminhamento para avaliação clínica e tratamento;

• o aprendizado de técnicas artesanais, retirada da vivência de construção artesanal b, possibilitando confecções outras, de forma a favorecer a produção independente, podendo promover um aumento da renda familiar;

• a descoberta da possibilidade e aptidão de desenvolvimento de trabalhos artesanais por parte de várias mulheres atendidas.

O Projeto foi desenvolvido semanalmente de agosto de 2005 a março 2008 numa Casa de Apoio para Crianças e Adolescentes com Câncer no Rio de janeiro.

Este foi criado e idealizado por Ana Luisa Baptista, Coordenadora dos Atendimentos em Arteterapia a Crianças, Adolescentes e seus familiares e Supervisora do Projeto Formas Marias de Ser na época.

Inicialmente contou com a participação de Elaine Barcellos, arteterapeuta credenciada à AARJ e com a psicóloga Rosane Santos, psicóloga, em sua implantação e nos primeiros meses de trabalho.

Posteriormente outros arteterapeutas formados pelo Incorporar-t
e ou em fase de formação, psicólogos e voluntários da Casa também participaram do Projeto.

No IX Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia Pediátrica e II Encontro Internacional de Psico-Oncologia e Cuidados PDSC00532.jpgaliativos, realizado em maio de 2006 em São Paulo, o Projeto recebeu o prêmio de melhor Tema Livre, na categoria Originalidade.

O grupo inicial no qual o projeto foi implantado serviu como um Projeto Piloto, trazendo as particularidades do Feminino de todo o Brasil, favorecendo reflexões múltiplas sobre as nuances regionais.

Esta primeira base por sua diversidade, possibilitou o aprimoramento técnico e metodológico do trabalho desenvolvido, trazendo implementações diversas que podem atender a demandas de outras cominidades.

Isso permite sua implantação e
m outros espaços do país, adaptando-se a novas realidades locais, e abrindo espaço para que mulheres possam refletir sobre sua identidade e, paralelamente, criar produtos que gerem renda para o seu sustento e de sua família.

Ao lado:
fotos de alguns dos produtos confeccionados, trazendo a visão do Feminino de mulheres brasileiras, Mães e acompanhanetes de crianças e adolescentes com câncer, participantes do Projeto Forma Marias de Ser em sua primeira versão.

 

 

 



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